Como o Daesh Fala Sobre o Mundo: Pontos centrais do discurso do Estado Islâmico

Esta é a versão portuguesa de um artigo originalmente publicado em ingles. O original pode ser consultado aqui. Gostaria de agradecer a Filipa Pestana pela tradução! Podem encontrar a sua página aqui.

Se eu dissesse que é aliado dos “sahwat” (literalmente, aqueles que despertam) isso significaria alguma coisa para si? Sentir-se-ia insultado, orgulhoso, ou apenas confuso? Mesmo que falasse árabe, o insulto provavelmente não faria de imediato muito sentido porque, na forma aqui usada, o termo é algo recente e esotérico. Agora imagine, por exemplo, que alguém passava a referir-se ao presidente egípcio Sisi como “taghut” (tirano)? Um muçulmano provavelmente saberia a que se refere a palavra, visto que está presente no Corão, mas um não-muçulmano ficaria com certeza baralhado. Para clarificar um pouco o que se passa aqui, é necessário fazer uma análise de discurso, focada em termos-chave utilizados pelo Estado Islâmico e pelos seus apoiantes. Veremos pois como estes dois termos – “sahwat” e “taghut” (no plural “tawagheet”) – são centrais para o Daesh e o seu entendimento do mundo. Exemplos de declarações proferidas por líderes do Estado Islâmico, bem como por meros utilizadores de Twitter, ilustrarão o discurso em análise.
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Traduções (sic) dos 4 tweets em apreço:

T1: “al-Zarqawi disse que teriam alcançado a Europa em 2006 se não tivesse sido pelos sahwat (traidores sunitas) no Iraque.”

T2: “Quem teve a ideia do “Ameer do twitter”, “amir wilayah twitter” são aliados dos sahwat Será que todos os sahwat são atrasados?”

[“ameer/amir” significa “príncipe” e “wilayah” diz respeito a uma divisão territorial e administrativa, na qual o Estado Islâmico se encontra dividido, podendo traduzir-se para “província” – assim, “príncipe da província”]

T3: “@sasha_alberouna Ele comem sempre bife com sahwat”

T4: “@SyrianGirl1982 a sério hmmmm isso foi o que os americanos disseram quando treinaram os sahwat no Iraque”

Começaremos pelo quarto e último tweet, que liga o termo “sahwat” às suas raízes mais recentes na guerra do Iraque. O primeiro tweet também aborda explicitamente a História, mencionando Abu Musab al-Zarqawi. Durante os anos de horrível violência e instabilidade que o Iraque sofreu (e continua a sofrer) após a invasão dos Estados Unidos, o percursor do Estado Islâmico – a Al Qaeda no Iraque (AQI) – já existia, tendo-se transformado em Estado Islâmico do Iraque (EII) em Junho de 2006 (Lister 39, 2015). Zarqawi, o líder da organização, procurou torná-la o mais brutal possível. Todos os que não obedecessem aos diktats do grupo, mesmo muçulmanos sunitas, eram considerados alvos. Por este motivo, o grupo acabou por colidir com vários segmentos da comunidade sunita no Iraque que não apoiavam a sua visão extremista e jihadista. O grupo praticava “takfir”, isto é, rotulava os não-membros de apóstatas. Isto exacerbou os seus problemas com alguns muçulmanos sunitas da região, para não falar dos que não eram sequer sunitas.

Em resposta, tribos locais da Província de Anbar no Iraque revoltaram-se para desafiar a AQI  e recuperar os seus territórios. Essas mobilizações ficaram conhecidas como “sahwat”. Estes grupos sunitas colaboraram com forças americanas para lutar contra Zarqawi e a AQI, por forma a expulsá-los do Iraque. A AQI começara já a impor uma interpretação muito estrita da “sharia” (lei islâmica) nas áreas sob o seu controlo, o que desagradava às populações locais. Em paralelo, dá-se o aumento de tropas americanas no Iraque, numa tentativa não apenas de esmagar a presença da Al Qaeda mas também de reduzir os níveis de violência, visto que 2005 e 2006 foram anos muito sangrentos.

Assim, as rebeliões formadas por coligações de tribos contra a forma inicial do Daesh (inicialmente denominado AQI e depois EII) são hoje apenas entendidas como traições sunitas. Embora essas rebeliões tenham praticamente terminado em 2009, a experiência marcou fortemente o Daesh, que passou a utilizar o termo “sahwat” para se referir mais amplamente aos sunitas que não apoiam o grupo e o confrontam. Discutivelmente, os “sahwat” no Iraque foram a força mais potente a mobilizar-se contra o Daesh e estiveram muito perto de o eliminar. Apesar de o contexto específico dizer respeito a tribos locais, parece que muitos hoje não o utilizam apenas nesse sentido. A citação abaixo ajuda a compreender como este discurso foi mobilizado vários anos depois dos referidos acontecimentos no Iraque.

“Na verdade, a Al Qaeda de hoje já não é a Al Qaeda da jihad, pelo que já não é a base da jihad. Aquele que a admira é do mais baixo que existe, os tiranos galanteiam-na, e os desviados e perdidos tentam conquistá-la. Não é a base da jihad que se infiltra entre as fileiras dos “sahwat” e dos secularistas. A própria Al Qaeda de hoje deixou de ser a base da jihad e, em vez disso, a sua liderança tornou-se um eixo de apoio à destruição do Estado Islâmico e do futuro Califado.”

Abu Muhammad al-Adnani, al-Furqan Media, 17 de Abril de 2014, citado em Lister, 2015.

O excerto anterior, retirado de um discurso proferido por Abu Muhammad al-Adnani (um líder do Daesh), contextualiza o termo, ao apresentá-lo ao lado de “secularistas”. A afirmação refere-se de forma subtil à guerra na Síria, uma vez que o líder acusa a Jabhat al-Nusra – que corresponde, com efeito, à Al Qaeda na Síria – de formar alianças com grupos secularistas ou “sahwat”, com quem não deveria aliar-se. Isto ocorre no final de uma longa luta entre o Daesh e uma coligação de outros grupos rebeldes que deflagrou no final de 2013 e início de 2014. Neste período, aumenta o medo entre membros e apoiantes do Daesh de que uma nova vaga de revoltas “sahwat” viesse desafiá-los.

Há um segundo ângulo pelo qual analisar este uso do termo “sahwat”. Se nos mantivermos fieis à definição do termo como referente às manifestações de tribos sunitas  (com auxílio monetário e militar dos EUA) contra o Daesh, é fácil compreender por que motivo o grupo vê uma situação paralela no caso da Síria, em que os EUA forneceram armas e dinheiro a certos grupos rebeldes, mas não a outros. Sobretudo tendo em conta a visão comum (com ou sem fundamento) de que os EUA têm feito bastante nos bastidores para apoiar jihadistas e destabilizar a Síria de modo a derrubar Assad, este receio faz todo o sentido.

Os tweets supracitados, desta vez em língua árabe, realçam outro aspecto do discurso que rodeia o termo “sahwat”. Em ambos os casos a palavra “al-ridda” foi adicionada a “sahwat”, ligando explicitamente o termo à ideia de abandono do Islão. Isto pode ser entendido como uma disputa pelo direito de falar em nome do Islão sunita. Estarão os críticos islâmicos corretos em dizer que o Daesh não age de modo condizente com o Islão? Para o grupo e os seus apoiantes, a resposta é nitidamente “não”, e o status de muçulmano de quem o sugere deve ser posto em causa. Para alguns do twitters citados anteriormente, o termo “sahwat” resulta suficiente para transmitir esta ideia, porém aqui alguém sentiu a necessidade de acrescentar “al-ridda”. Em todo o caso, pode dizer-se que o Daesh exerce um policiamento do discurso islâmico, relacionando também o termo “sahwat” com os EUA e o Ocidente de um modo mais geral.

Os “tawagheet”: tiranos enlouquecidos

Regressemos agora à citação de Muhammad al-Adnani que referi em cima. O segundo maior elemento no discurso do Daesh que quero salientar aparece precisamente no mesmo excerto. Na segunda linha, o autor critica a Al Qaeda, dizendo que os tiranos a “galanteiam” (tradução do inglês “flirt with”). Aqui, “tiranos” resultou da tradução inglesa do termo árabe “taghut”. A palavra remonta ao Corão onde o seu significado, aliás, varia algures entre “tirano” e “ídolo”.

TAGHUT: (n) Aquele que “transgrediu as fronteiras” tornando-se um RADICAL APÓSTATA que verbaliza a sua falta de fé numa ‘religião de paz’.

 

Surpreendeu-me o facto de ter encontrado um tweet como este, que procura explicitamente definir o termo “taghut”. Porém, não reflete exatamente o seu significado, visto que não encaixa bem na ideia de um tirano ou de um ídolo, e que a palavra radical é usada de forma duvidosa. Acontece que esta conta de Twitter é, afinal, dedicada ao ódio pelos jihadistas, não se tratando portanto de alguém que usa o termo “taghut” porque entende o mundo dessa forma. O tweet que se segue é um melhor reflexo da forma como o termo é utilizado por apoiantes do Daesh:

muitos dos protestantes pacíficos são agora Mujahideen no campo de batalha, defendendo as frentes contra os tawagheet, Alhamdulillah

 

Aqui, o uso do termo está claramente de acordo com a definição de um tirano que governa de forma inconsistente com o Islão. Esta definição tem vários precedentes no Médio Oriente moderno, após a I Guerra Mundial. Muitos Estados pós-coloniais ficaram sob o controlo de monarquias que em pouco dignificavam o Islão (como Marrocos, os Emiratos Árabes Unidos, o Barain, etc.), ou de ditaduras militares (Síria, Iraque, Egipto, Líbia). Para o Daesh e os seus apoiantes, todos estes governantes eram “tawagheet”. A História deste período, a partir dos anos 70, mostra que diversos grupos, como a Irmandade Muçulmana, procuraram desafiar estes líderes, por vezes de forma violenta. O presidente Anwar Sadat do Egipto foi assassinado, Hosni Mubarak sobreviveu a uma tentativa de assassinato, e houve grandes revoltas contra Hafez al-Assad na Síria (1982) e Sadam Hussein no Iraque (1991), embora este último seja um pouco diferente dos demais. [Falo mais aprofundadamente acerca deste assunto na minha apresentação – cujo vídeo os leitores podem encontrar aqui.]

Em conclusão, estes dois termos são muito importantes para compreender o Daesh porque demonstram a forma como o grupo observa o mundo e como o seu discurso é moldado. Os discursos que policiam identidades colectivas e afastam adversários não são, claro, um exclusivo do Daesh. É possível encontrar termos semelhantes em muitos outros grupos – pense-se, por exemplo, em RINO “Republican in Name Only” (Republicano Apenas de Nome), um termo comum entre os apoiantes de Donald Trump, embora não exclusivamente. É este o poder do discurso – ele molda (e molda-se através d’) as nossas visões e entendimentos da realidade. Os exemplos aqui apresentados, em várias línguas, mostram exatamente isso.

 

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