A Ascensão do Estado Islâmico /ISIS Tem Raízes Complexas Dentro e Fora do Médio Oriente

Esta é a versão portuguesa de um artigo originalmente publicado em sueco, no jornal Sydsvenskan. O original pode ser consultado aqui, e a tradução inglesa aqui.  Gostaria de agradecer a Filipa Pestana pela tradução! Podem encontrar a sua página aqui.

A captura de Mossul pelo ISIS, em Junho de 2014, anunciou definitivamente a sua presença ao mundo. As causas profundas da sua emergência são complexas e multifacetadas. A maioria destas causas teve origem ao longo dos últimos 10 anos, especialmente o prolongado vácuo de poder resultante da invasão americana do Iraque. Outros fatores, muito mais antigos, estão associados a fenómenos presentes em várias sociedades do Médio Oriente nos últimos 40 anos, nomeadamente o fracasso do nacionalismo árabe e o crescimento do Islão político. No entanto, nem todas as raízes se encontram no Médio Oriente. O conflito sangrento na Chechénia desempenhou certamente um papel importante. Devemos igualmente reconhecer o racismo institucional e estrutural nas sociedades europeias, que tanto tem dificultado a integração de imigrantes árabes e muçulmanos. Todas estas regiões, ainda que geograficamente díspares, contribuíram para o fluxo de jihadistas que se vêm juntando às fileiras do Estado Islâmico.

A geopolítica que anima o conflito com o ISIS tem também raízes muito profundas. Podemos entender a realidade contemporânea como um mundo no crepúsculo da tentativa fracassada dos Estados Unidos de se afirmarem como potência soberana, do ponto de vista das relações internacionais. Como reação errónea aos eventos do 11 de Setembro, os Estados Unidos iniciaram uma “Guerra ao Terror”, e procederam à “de-Baathificação” e à desmontagem do exército iraquiano, após as quais o Iraque sofreu anos de instabilidade prolongada. Muitos dos que trabalhavam para o antigo regime perderam os seus postos. Sem estes fatores, o Iraque não teria assistido ao crescimento do ISIS tal como o conhecemos hoje.

Por outro lado, o Irão (maioritariamente Xiita) tem sido bastante ativo a nível regional desde a Revolução Islâmica de 1979, tendo aproveitado a oportunidade de exercer uma maior influência sobre o Iraque após a queda de Saddam Hussein. Muitas das dinâmicas que se seguiram são conhecidas: o Irão apoia o regime de Bashar Al-Assad na Síria, enquanto a Arábia Saudita e as restantes monarquias Sunitas apoiam os grupos rebeldes que procuram depô-lo. Estas monarquias e regimes Sunitas, como a referida Arábia Saudita, mas também o Bahrain, o Qatar, o Kuwait, a Jordânia, ou o Egito, contam com o incondicional apoio americano. Isto representa a aposta americana de longo-prazo nas monarquias Sunitas, uma estratégia controlar o Irão pós-1979 e ao mesmo tempo aliar-se às nações produtoras de petróleo.

Outras circunstâncias geopolíticas contribuem ainda para o crescimento do ISIS. O apoio iraniano ao governo de Maliki no Iraque e aos seus excessos sectários, tem levado vários grupos Sunitas a tentar encontrar uma solução. A Turquia tem mostrado interesse em albergar os grupos rebeldes que lutam contra Assad, bem como em permitir o movimento de rebeldes e de material militar através da sua fronteira com a Síria. Embora a Turquia pudesse certamente tomar medidas para exercer maior controlo sobre quem atravessa as suas fronteiras em direção à zona de guerra, sobretudo guerrilheiros que viajam para se juntar ao Estado Islâmico, a verdade é que não consegue controlar completamente uma fronteira tão ampla e geograficamente complexa. A porosidade desta fronteira tem contribuído para inflamar não só a guerra na Síria, por via da mobilidade de jihadistas do ISIS, mas também a capacidade do Estado Islâmico de lucrar com a exportação de petróleo.

Numa perspectiva mais alargada, é também de mencionar a natureza do sistema global de mobilidade. Na atualidade, este sistema dirige todos os esforços para facilitar a circulação de bens e de capital, e por oposição, para controlar o movimento de pessoas. Bastará pensar nas recentes Parceria Trans-Pacífica (TPP) e Parceria Trans-Atlântica de Comércio e Investimento (TTIP) para se compreender que os Estados poderosos desejam ver circular livremente bens e capitais, enquanto a crise de refugiados na Europa e na Turquia tem revelado uma pretensão de estancar o movimento de pessoas. Esta tendência, que ganha corpo na expressão “Fortaleza Europa”, consiste essencialmente em impedir certos migrantes de chegar à Europa, permitindo porém que os detentores de passaportes dos EUA/UE se movimentem livremente para fora da zona protegida. É precisamente este sistema que tem permitido que muitos indivíduos já identificados pelos serviços secretos americanos e europeus abandonem estes territórios e viajem para ingressar as fileiras do ISIS. Funcionasse o sistema global de forma diferente, e estes cidadãos ocidentais teriam muito maior dificuldade em fazê-lo.

O futuro do jogo permanece complexo e sem soluções claras. Se Assad for derrotado antes do ISIS, existe uma forte possibilidade de este último poder expandir-se para áreas deixadas vazias pelo regime, tal como procura já fazer na cidade de Hama. O colapso do governo de Assad produzirá muito provavelmente um êxodo de população civil residente em áreas controladas pelo regime. Em alternativa, caso o ISIS seja derrotado e Assad permaneça, o legado tóxico da guerra arruinará a sua capacidade de governar o país e a Síria terá muita dificuldade em regressar à normalidade num qualquer curto/médio prazo. Por fim, a hipótese de os grupos rebeldes em conjunto com as forças ocidentais conseguirem derrotar tanto Assad como o ISIS abriria um colossal vazio de poder, tão difícil de estabilizar como no caso do Iraque e da Líbia – um erro que as forças ocidentais não podem dar-se ao luxo de voltar a cometer.

A vontade da Rússia de entrar no conflito é menos complexa – efetivamente, arrisca piorar uma guerra já suficientemente complexa, mas também não está a empurrar o regime em direção ao colapso. Está a tentar explicitamente estabilizar o regime criminoso de Assad, não tendo meios para lidar com o legado tóxico com que o povo sírio terá de viver se esse regime sobreviver e estabilizar.

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